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"E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios."
"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo".
(Clarice Lispector)
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Sábado, Março 17, 2007
A PROTAGONISTA E SEU VISITANTE
Salete Cardozo Cochinsky
No mesmo lugar, físico? Sim, subjetivo, não se sabe.
Diariamente a Protagonista, após seu almoço senta-se em uma cadeira com sua xícara de chá que é sorvido vagarosamente sob o telhado da churrasqueira que fica entre a casa e o jardim/pomar. Com freqüência, recebe um visitante.
O visitante chega sempre pelo mesmo caminho, já não é surpresa. Ela não o espera nem o des¿espera, porque sabe que quem decide a visita é ele e isso sempre a agradará.
Quando os dois olham-se são cúmplices no silêncio. Ele vem com seus passos decidos, espetaculoso em sua postura e nos gestos. Seu olhar é altivo. Seu aspecto é de quem sabe o que quer e de que a protagonista não se oporá à sua presença e ao seu intento.
A protagonista muitas vezes fica com a xícara de chá suspensa, pois a partir do momento em que constata a presença de sua tão inusitada quanto natural companhia, permanece imóvel para não quebrar o encanto desse momento.
Ó sabiá tua existência é admirada e já foi motivo de inspiração para tantos outros que como a Protagonista são sensíveis a natureza. Não seria a Protagonista alguém capaz de impedir que tu busques tuas formigas, insetos e minhocas, alimento que ali sempre vai encontrar.
Sábado, Fevereiro 24, 2007
AMOR
Clarice Lispector
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha ¿ com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto ¿ ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar ¿ o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir ¿ como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada ¿ o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão ¿ Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava ¿ o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão ¿ e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou ¿ voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário ¿ era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega ¿ era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria ¿ e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito ¿ o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava ¿ que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado ¿ amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal ¿ o cego ou o belo Jardim Botânico? ¿ agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo ¿ e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
¿ O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
¿ Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
¿ Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
¿ Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007
CAIXA DE MEMÓRIAS - OS TACOS
Henriette Effenberger
O chão da sala de minha casa era recoberto por tacos de madeira pequenos, escuros e cuidadosamente encerados. Talvez, pelos muitos anos de uso ou, quem sabe, porque tenham sido mal colocados, alguns deles se soltaram e eu, menina, imaginava que debaixo do piso de cimento estaria enterrado um tesouro, nunca descoberto. Mas o cimento era duro e impossível de ser perfurado, apesar de todos meus esforços, onde me utilizava de pedaços de pau, pedra ou qualquer outro objeto pontiagudo que me caísse nas mãos. Para mim continuava o mistério : e se não fosse um tesouro e sim uma passagem secreta para o reino mágico de fadas e duendes minúsculos ?
Às vezes, acontecia de alguma formiga se refugiar sob o taco solto e o fato aguçava minha imaginação, fortalecendo minhas conjecturas de criança, imaginando que poderia montar o inseto como se fosse um cavalo e descobrir, através das frestas e rachaduras do cimento, os segredos tão bem guardados e as fadas que me realizariam as vontades. Chegava a sofrer ante a possibilidade de me ser permitida a expressão de apenas um desejo, ficando em dúvida entre pedir a boneca "Amiguinha" ou a bicicleta, que nunca aprendi a andar.
Mas, havia outros desejos bem mais fáceis de serem atendidos. Como não precisar comer toda a comida que me punham no prato, livrar-me das botas que corrigiram meus "pés chatos" ou ter cabelos compridos que nunca precisassem ser desembaraçados...
Fantasiava também que a fada me daria o poder de fazer com que determinadas pessoas desaparecessem para sempre e eu já via indo pelos ares a vizinha gorda de sorriso asqueroso, o homem da carrocinha que recolhia cachorros e o dono do açougue com seu avental sujo de sangue...
Jamais consegui localizar o tesouro secreto. As fadas e os duendes também nunca me apareceram. Nem mesmo, quando eu já não tinha nenhuma dúvida sobre qual seria meu único e definitivo desejo : ter meu pai, de novo, em casa.
henriette@vivax.com.br
http://www.asesbp.com.br/escritores/henriette.htm
Terça-feira, Fevereiro 13, 2007
NO CAMINHO DA LIBERDADE
(Luciana Pessanha Pires- Texto premiado no Concurso de Redação para Professores promovido pela Academia Brasileira de Letras em parceria com a Folha Dirigida- 2001)
"Que marchem!" Marchar fala da atividade insessante, indica luta, coragem, requer idealismo, diligência, perseverança. É um imperativo que aponta para o progresso contínuo, para uma peregrinação saudável e frutífera rumo à liberdade transformadora do olhar.
Já Aristóteles ressaltava a primazia da visão sobre os outros sentidos. Santo Agostinho celebrava platonicamente como "o mais espiritual dos sentidos". Certo é que com o olhar capturamos, cedemos,extraimos, doamos,acolhemos, rejeitamos, permitimos, negamos, negociamos intenções, desejos,fantasias e frustrações.
Com Machado de Assis, quantos de nós não apanhamos o hábito de investigar as pessoas antes de aceitá-las? O Olhar de ressaca de Capitú pode tornar-nos "exímios" leitores de olhares. Desprezar as evidências do olhar não é inteligente. Mas às vezes é imprescindível lançarmos olhares desarmados, sem os preconceitos que nos foram impostos.O preconceito diminuiu-nos,aviltou-nos, amesquinhou-nos, tolheu nossa liberdade, impediu nosso diálogo com os outros.
Conhecemos a inclinação humana para a negligência, o desânimo, o receio da novidade, a soberba. Esse comportamento nos paraliza, deixa em nossas mãos receituários que pouco nos servem, limita nossas expectativas.
Sobre isso já escreveu Mário de Andrade: "o passado é uma lição para se meditar, não para reproduzir" Quando não há liberdade, os conhecimentos são escolhidos e impostos para que os aceitemos e nos moldemos por eles. É a filosofia do conformismo e da passividade.
Apesar das marcas da luta em que pesem algumas desilusões ou desencantos, vale a pena enxergar em profundidade, além das aparências frias das coisas.
Ivan Lins e Victor Martins, na letra da música intitulada: DAQUILO QUE EU SEI, disseram: "Não fechei os olhos/não tapei os ouvidos/cheirei, toquei, provei/ ah! eu usei todos os sentidos/só não lavei as mãos/e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo". Agir com liberdade é não ter receios para usar todos os sentidos. É não nos omitirmos. É aguçar nossa capacidade de visão.
Fazer as massas levantarem-se e ver um pouco além de seus estreitos horizontes foi o mister de cientistas como Einstein, estadistas como Lênim, libertadores revolucionários como os latino-americanos Bolívar, Martin, entre tantos outros. Mas nem sempre as pessoas estão preparadas ou dispostas para ver. Estão presas em demasia aos seus valores tradicionais, perdendo, com isso, a perspectiva de julgar com isenção e serenidade outros valores, diferentes dos seus.
Há que se apostar nos sonhos, quebrar certas rotinas, deixar o grão do inesperado brotar, ver com os olhos livres. Ser acrobata, flexível. Aprender a partilhar, regar e colher no tempo oportuno. Não impedir o avanço, a descoberta. Nascer a cada dia para o novo. Criar dentro de si o tempo renovado. Estar um passo a frente. Desamarrar laços inúteis. Expandir o olhar.
É preciso deixar os embaraços do medo, dos preconceitos. E brindar ao novo. Expelir olhares frios, rotineiros, mecânicos, formais. Cultivar o respeito as opiniões alheias. Duvidar de tantos paradigmas. Aproveitar as oportunidades. Ousar.
Que vantagens auferiremos por trilhar esse caminho? Há um particular tesouro no caminho da liberdade. Só precisamos levantar os olhos e ver.
Luciana Pessanha Pires- Nasceu em Itaperuna- RJ. É professora de Literatura Brasileira, atual Presidente da Academia Itaperunense de Letras, ocupa a Cadeira 7, patronímica de Gonçalves Dias. Publicou dois livros: "Renascer"- poemas e "Sobre Tempos e Jardins"- crônicas. Colunista do Jornal Tribuna do Noroeste, assinando a coluna O Vôo da Garça, espaço destinado à Academia Itaperunense de Letras.
Condecorada com Mérito Literário no VII Concurso de Contos e Poemas do Brasil da Litteris Editora; 2º lugar no concurso literário realizado pela Litteris Editora, com a obra "Escrevo Por quê"; premiada no concurso "Devemos ver com os olhos livres", promovido pela Academia Brasileira de Letras em parceria com a Folha Dirigida em 2001.
Terça-feira, Janeiro 23, 2007
A ESTRELA DA TARDE
Orides Fontela
A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume
A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima
Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.
Segunda-feira, Janeiro 15, 2007
Último Suspiro
Tatiana Alves
Poderia ter sido um bilhete de metrô, esguio e longilíneo, com a elegante tarja magnética, mas estava fadado a ser o primo pobre da história: nascera um reles vale-transporte, desses de papel, que eram recebidos em cartela, aos montes, por trabalhadores no início do mês. Sabia que sua vida era curta, como as de todos os de sua espécie: só duraria até o próximo aumento, o que deveria acontecer nos meses seguintes. A morte precoce, entretanto, nunca o assustara, até porque a expectativa de vida curta era corriqueira em seu meio, e ele até já se acostumara à idéia.
Sentira-se nobre, de início: fora o primeiro da família a deixar de ser cruzeiro. Era Real, e enchia a boca ao contar aos demais o quanto a mudança de nome o tinha valorizado. Seu sonho inconfesso, contudo, sempre fora o de ser uma moeda, lustrosa e reluzente, para tilintar e brilhar nos lugares por onde passasse. Seu pai, contudo, mostrara-lhe a missão da família: como guias, permitiam às pessoas a ida a lugares longínquos, e o seu objetivo, desde então, passara à tarefa de levar o homem a algum lugar grandioso. E foi assim que se viu, um dia, passando das mãos do dono às de uma mocinha que o trocou por amendoins com um ambulante no ônibus. Das mãos do vendedor, virou troco, até ficar esquecido no fundo de um bolso traseiro. Logo ele, tão nobre, amassado nos fundos de uma calça encardida.
Acordara no dia seguinte dentro de uma carteira velha, na mochila de um estudante. Chovia muito nesse dia, e o menino, distraído, deixou a carteira cair ao correr para alcançar o ônibus. O pobre bilhete viu-se de repente lançado a uma poça que aos poucos espalhava água ao redor. Fazia muito frio, mas o que realmente o magoava era a certeza de ter sido tudo em vão. Jamais confraternizara com colegas na gaveta de um ônibus, ou fora cuidadosamente alisado por um cobrador. A tristeza o corroía enquanto sua vida se esfarelava naquela carteira encharcada. Sentia-se rasgado no corpo e na alma, e sua tinta borrara-se por completo. Seu último suspiro não teve testemunhas ou lamentos. Dissolvera-se em uma pequena poça na Avenida Presidente Vargas, às oito horas de uma manhã chuvosa do ano de 1994.
Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
DIANA, CAÇADORA MINHA - in Fantasia de Eros
Cármen Rocha
Das circunstâncias...
Estou trêmulo, e sensações loucas como sátiros endiabrados comandam meu cérebro enlouquecido. Bato à porta. Abrem-na em silêncio e me apontam a escada carcomida. Subo. Sinto o ranço do tempo e da poeira. Respiro fundo e me disponho a descobrir aquele cheiro de suor e vida. De tempos, em tempo. Eis minha vida. Onde sinto energia, me eriço e me arrepio com promessas estranhas de orgias loucas, e escorrem e indefinem sentimentos.Entro.
Da rotina...
Aconteceu por acaso. Como todos os domingos, eu fazia o Parque Ibirapuera. Descansava sempre na última curva da subida, quando o cansaço me alcançava. Ali eu esperava minha alma, que preguiçosa sempre se perdia. Respirava, e meu devaneio me levava a lugar nenhum.
Perca-se, perca-se, aconselhava-me o Otávio, a vida é curta e você não vive. Isto não significava muito para mim. Uma vida normal, calma, mulher e bons filhos, cachorro, casa, belo carro na garagem e emprego estável. Querer mais? Não sou idiota! Tenho tudo o que todos querem. Maldito Otávio. Por que você veio com essas idéias tolas e instigadoras? Queria o quê? Destruir minha paz, acabar comigo? Adão e Eva viviam em paz, na santa paz do senhor! Sua cobra perturbadora dos infernos! Na minha cabeça martelava dia e noite: perca-se, perca-se. O homem é um ser imperfeito, feito de barro e sangue. E desejos, ódio, inconstâncias, desejos. O homem é puro desejo! Eu sei. Só agora me dei conta. Otávio maldito, mil mortes para você que despertou-me para esse mundo subterrâneo da mente incontida, que eu imaginava existir mas não sabia como. Não me pergunte da esposa recatada, da casa confortável, dos filhos adoráveis, diabo que te carregue, sei lá mais o quê ...
Das curvas...
Foi naquela curva do descanso que me perdi, e em todas as outras. Ela era toda selvagem, um ombro à mostra, dourado. Mastigava uma maçã, vermelha. Seus lábios também vermelhos, polpudos seguiam o movimento do vai e vem, pedido pela maçã vermelha, macia, polpuda, reveladora, fresca, doce, gostosa, obscena. Seus olhos. Redondos, famintos, cúpidos, embriagadores... noutros tempos eu não os veria. Diabo de Otávio.
Resquícios de consciência...
Mas não me entreguei assim fácil, não. Foi na segunda ou terceira vez... Sim, custei a notá-la. Mas como eu a notei, percebi, olhei, me enrosquei, agarrei, possui, me escravizei. Me perdi...? Minha alma delirou em devaneio?
De como tudo aconteceu...
Não falamos nada. Ela só chegou, e em solidão, pois trovejava, escurecia. A tempestade cairia em minha vida, eu já a pressentia. Insinuou-se, sorridente, encostou-se como se já fosse minha dona, e apenas roçou seus lábios nos meus e sua mão desceu rápida e tocou meu sexo. Largou um bilhete e correu, desaparecendo. Fiquei atônito, as têmporas latejavam, as veias ferviam. Tempestade. Baco tomou-me como presente, e eu totalmente embriagado entreguei-me em devaneio. O sangue escorria, em cachoeiras, alimentava-me, descia pelas alamedas, derramando-se, levando folhas, ciscos, gotas de suor e de chuva, enlanguecimentos, ejaculações de vinho, corri atrás, segui fiel, sentidos desesperados, desejosos, atrás de cabelos longos, cacheados, enroscados e pêlos insipientes, macios, perfumados, e com o vento fui e vim em melodia ritmada, de cadenciado, para rápido, insinuante. Perca-se, perca-se...
Do que encontrar no final da escada carcomida e escura?
Entro. Abajur reflexo, discreto, lilás, invade suas espáduas rosadas, frescas... Ela jaz arfante, seminua, estirada, de costas.
Em pé na cama meço-a do alto, ímpetos nunca imaginados. Diana, caçadora! Seus cabelos cacheados, longos, até a cintura tentam tampar a visão dessa deusa grega da caça. Lençol pétala-verde, como relva fina, encobre parte do contorno-vulto-desejo-mulher. Com o pé vou puxando-o lentamente e o afasto. Selvagens sentidos. A seda¿malva, semi-escorre de lado, quase nada mais encobrindo. Desfaço suas pernas cruzadas. Meço-a inteira. Nádegas úmidas, arredondadas, tenras, perfumadas exibem-se. Ah, como as sinto. Os contornos macios... Minhas mãos querem maiores definições e eu as procuro. Eu as beijo, dou palmadinhas, apalpo, aliso e aperto e agrado e torno a ...
Meus ratinhos cinzas, de patinhas delicadas correm em seu cangote em coceiras deliciosas, sobe, sobe mais e desce... assopro levemente, aliso até os pés, que beijo. Eis que então ela se entrega, e finalmente vira-se, e aponta para mim seus seios macios, atrevidos, rituais, opulentos, escorregadios, que, em cachoeiras, águas descem e enaltecem e escorrem, arranco-lhe ainda o que a cobre, e seus joelhos cedem. E então, eu a vejo despudorada, inteira, boca vermelha, maçã.
Uso tudo o que levava em minha rotineira caminhada santa e fiel. Maculo meu celular e a chave do carro. Balas de hortelã dão um toque refrescante aos recônditos vãos. Como água escorre o suor e a lágrima. A toalha enxuga, puxa, fricciona e fricciona. Saio do andante e entro no rápido, de cadenciado para mais rápido, insinuante... Perco-me em caracóis, em sensações, mordisco seu ventre em diapasão, em melodias, embriago-me e o vinho, pelos meus beiços, escorre em ais... em ais...
Perca-se... Perca-se...
A água da chuva leva meus dedos ávidos por todos os caminhos... reentrâncias e saliências. Os segredos de Diana-caça estão sendo desvendados. Suspiros e ais respondem aos meus resfolegos. Diana chora. Às vezes geme: mais, mais. Outras: não, por Baco! Então, ela toma os bagos de uva, torneia-os e descobre os lados sensuais do caminho. Segue. E me enlouquece... e me perco... em delírio... em afagos...
Do final...
Deixo-lhe no ventre o botão rosa que fenece no vaso. Como eu próprio. Exausto de tudo. Das curvas. Da tempestade... Da minha vida... Desço as escadarias, e sigo em linha reta. A lagoa do Parque agora é o meu único caminho. Sim, lá está a lagoa, onde afogarei o remorso dessa ação pecaminosa. Lavarei minha alma, maldito Otávio!
Perca-se, perca-se...
... E a água sobe e desce e me enlouquece... me encobre... esfria minha alma e o meu corpo, onde o seu se enroscou e se perdeu, Diana, minha linda e encantadora... e devassa amada...
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
REFLEXÕES SOBRE O INCENTIVO À CULTURA
Helena Ortiz
Difícil escrever quando se tem de falar de uma mesma coisa que tem várias definições, mas chamemos cultura a parte ou o aspecto da vida coletiva relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual e artística.
Hoje em dia muitas pessoas vivem da chamada cultura. Poucas produzem a obra de arte, mas muitos vivem dela. O artista cria e ainda precisa saber vender-se, o que já não é uma arte, mas uma aptidão. Aquele que não tem aptidão apenas criará e não obterá retorno. Não se concretizará a segunda parte da criação, que é a comunicação. Por isso ele precisa de alguém que o faça ¿ e aí vem a indústria.
Que diferença faz para a chamada cultura a aprovação de uma lei que beneficie investimentos no esporte? Perderá patrocinadores? Perderá, por certo, uma grande parcela. O esporte tem muito mais mídia, dizem. O esporte é para multidões. A uniformização não trata de sutilezas. É preciso que tudo que seja relacionado à cultura também seja levado à estatura mega, para atender aos desejos da sociedade capitalista.
Os escritores imaginam, escrevem, corrigem, reescrevem, cortam e finalizam. Em quanto tempo? Se numa noite ou em três meses para um conto; se em três meses ou um ano uma novela; se em uma semana ou dez anos um romance - não importa. Importa que houve o surto criativo e eles imprimiram ali o fruto das suas leituras, conhecimentos e experiências. É um ato de criação. Aquilo não existia antes, e a mão-de-obra foi do escritor, acredite ou não em Deus.
Sim, a literatura é para poucos, mas esses poucos são muitos se levarmos em conta a população do planeta, e mesmo do Brasil. Nem isso convence o sistema. E a observar os programas de incentivo à literatura, será cada vez para menos.
No cinema, o filme pode se inscrever em vários festivais e, em tendo obtido prêmios em vários, mesmo que em diferentes categorias, mais enriquece seu currículo e a possibilidade de venda e de público. No esporte, o atleta se inscreve em todas as competições possíveis, durante vários anos, na tentativa de, pelo menos, repetir o seu desempenho. Carreira e conta bancária crescerão na proporção direta do acúmulo de prêmios. O estudante de música que tiver vencido um concurso entre melhores do seu nível e faixa etária está com a vida feita. Daqui para a Europa. Vencer é véspera de avançar.
Já na literatura não acontece a mesma coisa. Os concursos literários, quase todos destinados a promover a escrita e divulgar o trabalho, exigem contos inéditos e cessão total de direitos, o que quer dizer que o autor queima as pestanas, como se dizia, para criar uma peça com prazo de validade. Se por acaso ele vencer, sua obra pertencerá aos promotores, e não mais e ele mesmo pelo período de cinco anos. Dá-se um prêmio em dinheiro (em patamares bastante inferiores aos oferecidos por concursos europeus, claro), com desconto de imposto de renda (claro!) e daí a um ano, talvez, será feita uma antologia com as obras dos outros reféns. Atenção para os autores que receberem menções honrosas, que não ganham dinheiro nenhum e também cederam os direitos por cinco anos.
Tudo isso, para que no fim, ninguém fique sabendo que conto venceu o concurso de Itabira, Araraquara, Campos, Funchal ou Saravejo. O autor recebe 20 exemplares do livro e dá para quem? Para quem já o conhece. Os amigos, os interessados mais próximos.
O prêmio, se não é em dinheiro, só serve para uma coisa, para mostrar que um texto foi aprovado por um grupo de pessoas consideradas preparadas para um julgamento. E o que significa isso? Vocês dirão: nada. E estão certos.
O atleta que cortou a fita na chegada não deixa dúvida sobre a vitória na competição.
O relógio está ali para marcar o tempo do nadador. Mas quem avaliou a peça literária? Fora os critérios básicos de linguagem, ortografia, sintaxe, o critério é e sempre será subjetivo. Entre três contos, por exemplo, a quem dar o primeiro lugar? Talvez quem resolva seja o jurado com mais títulos.
Quando pude promover um concurso, o regulamento estabelecia que os primeiros lugares receberiam prêmios iguais. E assim foi feito.
Há várias histórias sobre concursos e uma delas é de que um candidato teria feito um poema dedicado a um membro do júri, que insistiu na sua premiação, ameaçando retirar-se da comissão julgadora caso o seu ¿fã¿ não fosse vencedor. Diante desse impasse, o prêmio foi dividido em dois, porque afinal o poeta homenageado tinha mais mídia, e ¿ficaria mal¿ que saísse da comissão.
Como esta, há outras.
Uma pessoa que quer entrar para o serviço público pode prestar vários concursos. Se passar em um, ou mais, optará pelo que lhe for mais conveniente. Também isso não é permitido aos concorrentes de concursos literários. Se um texto seu receber um prêmio, não poderá recebê-lo em outro concurso. Já alguns concursos instituem um prêmio ¿nacional¿, mas preferem premiar os nativos da própria terrinha.
O atleta, o cineasta, os atores, todos eles repetem o seu desempenho. E principalmente no esporte existem os ¿olheiros¿ para ver quem tem o talento, quem tem as condições necessárias de se tornar um profissional importante. Alguém dirá a um atleta que ele não pode ganhar porque já ganhou uma vez? Ao contrário, as vitórias lhe trarão medalhas e reconhecimento. Na literatura, isso é proibido. O importante não é a obra, e sim o ineditismo. No entanto, o autor está só pondo à prova o seu desempenho, da mesma forma que o atleta, que o faz com o próprio corpo.
Senão, vejamos: quando um conto é premiado uma, duas, três vezes, é preciso que se preste atenção nisso. O olheiro verá (se existisse): quem são esses escritores que sempre são premiados em concursos? E vai lá oferecer-lhes um contrato gordo. Não é isso que se faz na cultura de massa?
Os órgãos de incentivo à cultura, a publicidade, instituições dependentes ou não de recursos públicos estão empenhados numa só coisa: entravar a cultura e potencializar o entretenimento. Esta reflexão foi feita também a partir da recém aprovada lei em benefício do esporte, via patrocínio empresarial. Parece que tudo está se juntando. O jogo vai mudar um pouco as regras. Vai se flexibilizar. Não sei se Delfin Neto chamaria isso de dividir o bolo. O objetivo, portanto, é claro: melhor investir nas multidões, na massa uniforme que se vai formando nos grandes estádios, nos espetáculos para milhões. A massa compra tudo que se lhe apresenta. Domesticá-la é fácil. Só pegaria mal se estivéssemos numa ditadura. Mas a democracia é uma puta banguela atirada numa cela. No seu lugar está uma moça bonita, chique e endinheirada que catalisa as vontades via tv. Fala-se muito mal ainda da ditadura militar e ninguém se levanta contra a ditadura do sistema capitalista.
Faz parte da mesma política a necessidade ¿premente¿ de inclusão digital nas escolas, enquanto não se fala em dar aos professores de primeiro grau o respeito devido, via salário. Da mesma forma a política institucional, via burocracia, inviabiliza os projetos da cultura de que se trata aqui.
Nunca me enganei com essas políticas de incentivo, embora eu mesma tenha que me ater a elas. Assim como pago os impostos todos. Estou refém do sistema, dos bancos, das administradoras de cartões. Sabem o que faço, quanto dinheiro tiro, se estou bem ou mal de vida, me telefonam pressurosos. Eu lhes digo: não, não quero, tenho medo. Afasto-os enquanto posso. Meu pai sempre me disse que usura era uma coisa feia, os agiotas eram mal vistos, eram tipos estranhos, que usavam ternos puídos e possuíam dezenas de imóveis. Algumas vezes morriam de maneira inexplicável, quando ainda nem havia matadores. Agiota. Agiotagem. Faz pensar em mau agouro, em rapina.
Divago e volto: por isso tantos empecilhos, projetos. Processos. pronacs, books, folders. Para depois o infeliz ter que sair ainda a catar a grana, perdendo tempo, tendo que fazer relações que nada têm de culturais.
Então, de novo, que a política é a da repetição: os mecanismos de incentivo à cultura são falsos. A burocracia é entrave para a realização. Não há vontade política de incentivar criação artística, Portanto, não há vontade de incentivar nada, a não ser o entretenimento. O que há é um comércio de interesses que vai se moldando às necessidades de cada um, com mais ou menos (na verdade bem pouco) pudor.
Não existe uma política para a cultura. O que existe é uma política para o entretenimento.
Se o Estado não tem essa idéia, precisa investir em idéias privadas e já concretizadas, e fazer com que progridam.
Quanto as promotores de concursos literários, seria preciso que fossem contra esta política estabelecida, e isso, certamente, não o farão. Estão por demais comprometidos.
Estas reflexões, que não são novas, apenas vêem à tona a partir de um fato que aconteceu comigo neste final de ano e passo a relatar com a concisão possível:
No dia 29/11 a Unicamp divulgou o resultado do concurso de contos que promoveu em comemoração aos 40 anos da Universidade.
Depois que a informação foi devidamente divulgada na mídia durante uma semana recebi uma ligação informando que meu conto, que havia recebido o segundo lugar, tinha sido desclassificado em virtude de uma ¿denúncia¿ informando que o conto já havia recebido menção honrosa num concurso do Paraná e que por causa disso não era mais inédito.
Argumentei dizendo que por ter sido premiado noutro concurso o conto não deixava de ser inédito, considerando-se inédito, conforme o Aurélio e a lei de direitos autorais, aquilo que não está publicado.
Não adiantou. A Procuradoria Geral da Universidade, considerando o Edital e a Lei Federal decidiu que não se configurava mais o ineditismo, e que o Júri deveria fazer o resultado levando em conta este fato.
A Universidade tomou uma decisão com base numa denúncia, sem mostrar a prova.
Os vencedores do concurso Unicamp são dois professores aposentados e um aluno da Unicamp. De fato, o concurso é totalmente Unicamp, como os nets.
Quarta-feira, Outubro 25, 2006
PISE NA GRAMA
Rosangela Aliberti
Qual a cor do teu céu? Como se explica o valor de uma noite de estrelas para quem não quer enxergar o céu...?
Esta é a história de dois velhos amigos, que se conhecem há mais ou menos quarenta anos, destas amizades que são conservadas apesar de novas pessoas dividirem caminhos de estradas.
- Daria tudo para enxergar uma estrela agora, disse o amigo mais velho impossibilitado desde pequeno do recurso do sentido da visão. Gostaria de ver agora o verde de um farol...
- Farol...!?! Retrucou S.
- Sim, do semáforo?
- ...Então vamos seguir em frente juntos...o que consegue perceber deste seu verde... ele te faz lembrar o que?
- Você tocou na palavra a minha ferida...
- Só podemos tocar nas feridas quando alguém se deixa tocar... Fale mais sobre esta sua ferida verde, JJ.
- Minha angústia, é como uma placa no meio do tráfego que diz o seguinte: RETORNO...
- Enquanto seus pensamentos retornam... penso nas placas verdes de retorno na cidade... e na placa SAÍDA...
- Sinto o cheiro tinta verde da tal placa RETORNO e o cheiro de tinta velha nesta parede que acabei de tocar... não encontro uma saída... - Choramingou, JJ.
- Vamos entrar no parque e caminhar... logo, logo poderíamos tirar os sapatos? Sinalizou, S.
- Para quê?
- Para fazer uma estrela com as pernas, descarregar energias, sentir a natureza de pertinho... e fazer algo contrário do que aquela placa diz... ¿ Sorriu S.
- Não tem cabimento eu fazer uma estrela nestas alturas do campeonato estou enferrujado, mas descarregar as energias... escute por aqui não é proibido pisar na grama...?
- Vamos lá se não conseguir fazer a estrela sinta seu corpo como uma estrela CHEIA DE LUZ, pois você ainda não sabe a tonalidade da grama, como eu não percebo muitas coisas ao meu redor, mas estou a fim de pisar nela... e você?
- Quero colocar os pés na grama: AGORA! (meias tiradas) Uauu sinta só os pelinhos da grama, não está seca, S., somos estrelas!!! Não estou sentindo mais o cheiro daquela da tinta na parede... que importa a cor daquela tinta na parede quando se pode sentir algo a mais que as pessoas não dão valor?
- Bingo! Seus pensamentos giram mais do que a roda de colocar os números de um jogo de tômbola... A roleta gira gira gira deságua um número e quando todas as pedras tiverem sido 'cantadas' irão retornar para o seu devido lugar... e um novo jogo será reiniciado... verdinho em folha...
- S. escreva em seu diário um poema verde, para mim... disse JJ.
- Acho que estamos construindo um poema verde em folha juntos... não quero escrever um poema concreto com a frieza dos edifícios com seus elevadores que sobem e descem automaticamente sem nenhum bom dia
do ascensorista por perto...
Bom dia JJ!!! Bom dia JJ!!! É difícil escrever um poema quando sentimos falta do limo nas pedras nos riachos sob os reflexos da lua nos dias quentes de verão... mas temos a grama para se pisar com os pés descalços; não é fácil escrever um poema sem o latido dos cães no velho morro perto de casa que se transformou num arsenal de prédios verticalizados formando um novo condomínio, mas temos agora a cantoria dos sapos na beira do rio no parque... Proponho agora que você me diga qual o seu poema verde...
- Meu poema verde tem o sorriso da alma das flores, S., é o verde do estojo com todos os outros lápis coloridos... Riu, JJ.
- Quem pode sonhar com a alma da flores... seria como poder sentir a alma das pessoas... se você não tem o verde, mas tiver nas mãos as tonalidades do perfume da alma de alguém a partir daquilo que constroem na vida quem precisa do verdadeiro estojo...? O verde relaxa, pessoas verdes estão sempre com seus faróis internos ligados para o verde!
- ...A lembrança do mar, o brilho da palavra esmeralda, o odor adocicado e enjoativo das damas da noites, meu poema verde tem explosões da revoada de borboletas raras, pios dos sábias laranjeiras dividindo os
vôos e os rodop(ios) nas asas das fadas recém-saídas dos livros de contos, gritando em coro: Verde! Verde! Verde... das pequenas tartarugas fora do aquário! O verde das roupas de algodão penduradas no varal
saem dos varais é o verde de uma poesia clara: como o perfume de incenso, o verde esperança do ramalhete de noiva, o verde do novinho em folha... verde broto! Soltou a voz o amigo.
- Seu poema verde tem determinadas coisas que também não posso tocar nem ver... parece que te fez sentir feliz? ...Tome esta folha o que você sente agora? Perguntou, S.
- As nervuras, a textura, a suavidade, uma parte da natureza sem enxergar o brilho: a folha brilha como as esmeraldas que descobri... dentro de mim, como os reflexos da lua que você citou agora... a falta de algo sempre irá existir para você e para mim, não é S.? Acho que podemos agora seguir em frente calçar os sapatos, vou levar está folha e o dia que ela secar, vou procurar pisar na grama aonde estiver escrito não pise na grama... alguém poderá sinalizar para mim: Você me ajudou mas eu te ajudei também, nem sempre aquilo que é proibido faz mal para todo mundo.
- Ok!!! JJ como a 'consulta foi mútua' (sorriso) não vou te o que cobrar nada... o jogo está um a um. Vamos continuar andando... o que você ouve agora?
- Os pássaros... - disse JJ. E se um dia o guarda implicar conosco...
- Acho que continuaria procurando pela grama... (com ou sem placa), garanto que têm muitas pessoas por aqui que estão caminhando no parque e não estão prestando atenção na beleza do canto das aves... Concluiu, S.
- ...E no barulho do balanço das folhas soltando o aroma dos eucaliptos... sigamos em frente sem todas as luzes que gostaríamos porém com o coração e a intenção dos... faróis!
Domingo, Setembro 10, 2006
Batam Palmas Pra Mim
Tania Melo
Todos somos imperfeitos, mas aí é que reside o belo, pois são essas imperfeições que fazem a diferença entre mim e o outro. Somos seres únicos.
Quando descobrimos isso, conseguimos NOS ver. A partir daí paramos de nos esconder atrás de imagens criadas para agradar aos outros e mostramos nosso verdadeiro eu.
Assim teremos muito mais chances de sermos verdadeiramente felizes e realizados, coisa difícil de acontecer se conduzirmos nossa vida tão somente na direção dos aplausos alheios, dando mais atenção ao que os outros esperam e acreditam em lugar do que realmente queremos.
Quem vive apenas para ser admirado é infeliz, porque esquece do compromisso consigo mesmo.
Quando nascemos, trazemos um potencial infinito em nosso interior, mas, por que motivo, ele vai diminuindo, mudando de aparência, se deformando, até não mais conseguirmos reconhecê-lo?
Conforme vamos tomando contato com a vida em família, na escola e culminando pelo grupo total de seres com os quais convivemos em nosso dia a dia, abandonamos os nossos verdadeiros ideais e perdemos o rumo. Passamos a viver em função dos outros. Medimos o nosso sucesso pelas reações que nossas atitudes provocam nessas pessoas e não como nós nos sentimos em realizá-las
Deixamos de lado a maioria de nossos sonhos por acharmos que eles não servem. Mas não servem para quem? Por terem sido criticados pelos outros, vão se encolhendo, se encolhendo, até se tornarem tão diminutos que morrem, ou se transmutam em algo sem a menor semelhança com a semente que lhes deu a vida.
É necessário aprender a apreciar o que fazemos, superar o medo dos riscos, independente da distância entre o que pretendemos e o que estamos colhendo, acompanhados, continuamente pela disposição de seguir pelas trilhas que ainda nos faltam. Mas tudo isto deve ser embalado por um querer intrínseco, que não nos transforme em algo diverso de quem somos, com a distorcida visão de que estamos acertando e conquistando o mundo por estarmos sendo aplaudidos lá fora.
Na verdade, os aplausos de que precisamos, são aqueles que vêm da nossa alma.
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Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br
Sábado, Setembro 09, 2006
A IMPORTÂNCIA DE NOSSAS ESCOLHAS
ROSE AROUCK
Vivemos sempre esperando alguma coisa, não é mesmo?
Uma carta, um telefonema, um emprego, um retorno de alguém, um filho, um casamento, um aumento de salário, um cargo cobiçado, uma mudança de vida pra melhor...
e essas esperas nos deixam excitados, expectativas ou melancólicos;
e quando as coisas nos chegam estamos já de imediato esperando outras coisas, importantes ou não.
A nossa vida se resume nisso no final das contas,
Mas, é sempre igual.
O poeta nos disse na sua canção:
"Quem sabe faz a hora e não espera acontecer"...
será? o que é fazer a "hora"?
Eu penso que é aproveitar as oportunidades sem medo, dando a cara à bater perante as adversidades, mas sem perder a esperança...
esperança é esperar,
então estou sendo contundente?
Bom, é complicado,
só sei que fazer a hora e ir a luta,
é não ficar parado,
é investi no sonho com unhas e dentes,
é saber o momento certo de atacar a sorte,
enfim, é acreditar em nós mesmo e principalmente na vida,
é pular os obstáculos que impedem de alcançar os nossos sonhos,
ter a garra necessária para não se deixar abater.
Precisamos continuar sendo os heróis da resistência, para que todas as nossas lutas sejam coroadas de êxitos.
A paciência é um sentimento que devemos ter armazenado
e bem rotulado dentro da nossa consciência. É aquele combustível necessário para quando
as horas difíceis se apresentarem. Devemos encher nosso tanque da alma desse combustível, para prosseguir o caminho da labuta e da suportação. Se deixarmos nosso motor falhar, podemos tombar enfraquecidos e fatalmente as angústias irão nos deprimir.
Esse combustível ajuda-nos a percorrer com mais cuidado os caminhos, deixando nossos olhos verem com mais clareza os buracos à nossa frente e dando-nos a chance de desviar com calma, nos livrando de ficar
lá enterrados dentro de nossas imperfeições, sem enxergar nossos defeitos. A falta desse combustível chamado paciência, nos limita e nos desequilibra totalmente. Perfeitos não somos, aliás ninguém é, mas é assim que podemos aliviar essas imperfeições; enxergando nossos semelhantes como se tivéssemos nos olhando num grande espelho. Vamos entender que o mundo ainda abriga muitas ciladas e se nossa calma se desmantela é certo que vamos cair nelas com mais facilidade. O raciocínio perfeito é munido desse combustível para que a reflexão nos dê uma ótima idéia, para evitar os aborrecimentos que estão sempre a nos cercar.
Falei muito na palavra combustível , mas de propósito, pois ao meu ver, a paciência é essencial para nos mover e nos dirigir em todas as nossas ações.
Tudo depende disso.
Amamos sim, mas, será que sabemos amar? Ou tentamos e o nosso orgulho sempre fala mais alto? Será que sabemos receber amor? Ou nosso egoísmo nos joga contra todas as possibilidades fazendo-nos enxergar coisas obscuras, sombrias, onde só devia existir luz? e quando esse amor nos é irradiado pela luz da amizade, nos colocamos acima de seus raios coloridos fazendo a opacidade da incerteza nos atingir.
Dar e receber amor é muito fácil quando estamos abertos para a vida, quando descomplicamos a vida. O ser humano é complexo nesse sentido; é voraz no receber e metódico no doar. Temos que saber dosar as medidas. Tudo é uma troca, e tem que ser uma troca perfeita sem excessos ou escassez. Equilíbrio é isso. Não vamos deixar os fantasmas da incoerência atingir nossas escolhas. Deus nos deu o direito da escolha vamos aproveitar e escolher o melhor para nós, vamos escolher amar sem reservas, sem restrições; porque aquele que não sabe amar sofre muito e também se recolhe dentro de uma profunda amargura. Alarguemos nossos horizontes com essa emanação carinhosa que é dada a nós. Basta sabermos distingui-la e superar aquela vaidade que sempre nos acompanha. A humildade é um dom que nos favorece muito na nossa caminhada. Os sábios são humildes porque não precisam provar nada ao mundo; eles são o que são, e o que são está sendo exibido em seus atos.
Que o amor floresça e abasteça sempre a nossa existência para que saibamos conservá-lo para sempre junto à nós.
Quinta-feira, Setembro 07, 2006
Páginas de um caderno velho
Maria José Lindgren
Abro, ao azar, um caderno de capa dura, cheia de elementos pseudo-condizentes com o conteúdo: flores em guirlandas, selos, rendas de bilro, frutas frescas...A palavra Amizade aparece destacada e, logo abaixo, a finalidade explícita: para recordações pessoais, planos e momentos especiais.
Suspeito um presente comprado sem atenção ao conteúdo. A amiga folheou-o rápido e topou com algumas frases de efeito. Pensou: perfeito para quem tem mania de citação. Como conheço pessoas de extremo bom-gosto, ou melhor, de gosto próximo ao meu, procuro, escarafuncho o verdadeiro porquê da escolha.
Em cada página, imitação dos românticos antigos, lugares-comuns. Começo a ler o nome dos autores e... pasmo: vão de Aristóteles e Voltaire a autores anônimos declarados ou, pelo menos, gente que não faz parte do meu parco repertório. E as frases! Em geral, nenhuma coincidência com a ilustração. Por acaso, uma das muitas dá certo: garrafa de vinho relacionada ao pensamento ¿A amizade é o vinho da vida¿.
Generalizar sempre é um risco. Para minha mãe que detestava vinho e cultivava amizades como ninguém, uma péssima afirmativa. E, desde quando um monte de lápis num porta-lápis tem a ver com ¿No Oriente um homem vale por cem mulheres....¿. Um punhado de malas reflete a consideração ¿Há pessoas que meditam nas falhas dos amigos e com isso nada ganham...¿? Um prato de flores bem miúdas significa ¿A amizade é uma das grandes consolações da vida...¿? Parece-me um completo nonsense.
.Decido ler o que eu própria escrevi. O caderno vai bombear-me o coração de sangue azul. A memória é consolo, se a gente aprende a apagar o que nos machuca.
Para contrariar a frase, como me machuco, logo de início! Fevereiro de 1997- ¿Morreu Darcy Ribeiro. Lutou muito, mas o câncer finalmente o derrotou. Lição de competência, tenacidade, apesar da loucura aparente.¿Não sei de onde saiu isto. Será loucura querer um país melhor? No auge da minha devoção à escola pública, Darcy Ribeiro era, para mim, um educador-herói, na luta a favor da inclusão social. Além de grande escritor, um grande antropólogo, um grande patriota.
Num salto, estou em julho do mesmo ano. ¿ De repente, lembro da casa de minha infância, do quarto de costura do quintal. Me dá uma vontade irreprimível de querer costurar. Prosaica, perco as altas intelectualidades depois da aventura do mestrado. Digo para mim mesma, como Manoel de Barros ¿O dia vai morrer aberto em mim¿...
É óbvia a mistura de sensações de perda: mãe, quarto de costura, e ganho: mestrado, Manoel de Barros. Não sou de tragédias apenas.. Que bom!
Em julho ainda, curso o Mestrado. ¿Ufa! Até que enfim!¿ Comento as aulas, os colegas, o clima acadêmico...esperançosa. ¿Carteiras escolares queridas, estamos de volta!¿ E termino: ¿Como Adélia Prado, quero envelhecer crivada de motivos¿, meu mote predileto.
Viro mais uma página. Anoto que não concordo com a citação do autor desconhecido: ¿Os amigos são como plantas dentro de casa. Exigem atenção constante! Respondo, como em discussão: se fosse assim, eu não teria mais nenhum amigo. Sou de boa de plantio; ruim de cultivo.
Paro e penso que preciso rever o que faço com minhas amizades. De certo foi por esta razão que ganhei o caderno. As enormes distâncias da megalópole, o trânsito difícil, o medo dos bandidos...nos separam. Os compromissos de mestrado, trabalho, marido e filhos, idem. Mas o amor fica latente, à espera de um sinal e ir e vir voando.
A página seguinte é do terceiro semestre do mestrado. 1998. Resmungo bastante: ¿ a simples procura do autor a estudar é uma maratona, de tanto que se gasta ¿corpos e mentes. Prá lá e prá cá, subo e desço escadas para a biblioteca, para encontrar ajuda.¿ E me pergunto, depois de meter a lenha no Pierre Bourdieu, vilão de meu sossego por um semestre inteiro. ¿Vamos ver no que dá toda esta mélange¿. Uso francês de pura bestice. Ou seria homenagem ao mestre?
Em março de 98, escrevo: ¿Bon voyage, mon amour!.. Nunca pensei que fosse tão brabo. Domingo à noite; ventos uivantes e eu sozinha, sem você, sem ninguém.¿ Aliás, não é novidade. Daí que me lembro dos socos nas almofadas, em desespero, à época em que estava sem companheiro: ¿ Eu quero um marido! Eu quero um marido¿.
Pulo para o final de 1999. Que intervalão! A dissertação do mestrado mais o trabalho pedagógico ocupam as queixas, os desabafos. Ambos me forçam a esquecer o caderno, a tomar Prozac, última moda da época para acalmar os nervos. Comento: ¿ Foi bom, afinal. Não sou esta fortaleza toda, esta muralha impenetrável e defensiva que me atribuem ser. Sofre, Maria, sofre!¿ termino, contente, com a canção do Milton Nascimento, que meu filho diz ter sido dedicada a mim: ¿Mas, é preciso ter gana/ é preciso coragem, sempre...¿
Logo me encontro com a ¿bela¿ banca da defesa de tese. Não sou nada modesta. Nem exigente. Me auto-elogio a valer. Nem tenho coragem de repetir o panegírico.Muito menos, as críticas.
Em 31 de dezembro de 1999, véspera do Novo Milênio, eu me pergunto: ¿Que história é essa de novo milênio, nova vida?! Recordo o ano em que fomos todos os da família jogar flores para Iemanjá e meu pai perdeu o que amealhou em mais de quarenta anos. Passamos de herdeiros ricos à massa falida, sem aviso prévio.
Acrescento: ¿Anozinho besta, este 1999! Turbulento, culminou com o enfarte de minha sogra. O Natal deu pro gasto; o Reveillón, meu Deus!!!! Só teve um jeito: comer castanhas até me empanturrar, beber vinho segundo os preceitos de meu pai que Deus o tenha. E rezar muito para que o ano 2000 valha a pena.
Depois, páginas em branco. O que fiz dessa época para cá vai ficar sem registro digno. Acho que desisti de anotações e comentários sobre mim mesma. Não servem para nada. Inda mais, quando a gente se atrapalha de tal modo que não vê brotar uma única palavra no papel.
Ademais, veio a aposentadoria, tornei-me escritora diária: meu livro único, marcou a estréia tchan, tchan, tchan de um registro de fatos vividos ou inventados. Sem ser auto-biográfico, revela os acontecimentos mais pitorescos de várias vidas. Recheei-o de memórias.
Hoje, valho-me da inspiração compulsiva do dia, da hora, O resto é dizer com Isadora Duncan que li, para variar, num livro de citações: ¿ Se você já foi ousada, não permita que a amansem!!! E já não é muito?!
Sexta-feira, Setembro 01, 2006
FALO
Patrícia Evans
Eu que reclamo estar sempre a mil
sempre só e às voltas com problemas
deveria prestar atenção nos fonemas
não só nos do puta-que-me-pariu
que me sai da goela quando era um suspiro
mas nos da outra boca que não sabe palavrar
que não pensa ou filosofa e que enfio
escondida em calças mais que surradas
Eu, que queria dizer "obrigada"
quando tento sai "caralho!"
Que queria dizer "eu te amo"
abro a boca e "que se foda!"
Eu que devia medir as palavras
digo-as tortas, inteiras e todas
que devia revirar os olhos
balançar a bunda empinada
em lordose mais que forçada
fecho os olhos de impaciência
ando ereta e correta
e não jogo os cabelos pro lado
porque são loiros e longos
mas os prendo em simples rabos
Eu que quando me calo
escorrego ainda um "merda"
devia arreganhar as pernas
Que o problema todo é_ Falo!
Sexta-feira, Agosto 25, 2006
Duas Taças
Ridamar Batista
Sobre a mesa bem posta, duas taças repousam meiadas de vinho tinto. A toalha em bordado aberto lembra as mesas da renascença. Branca embora nota-se um tom envelhecido no linho bom. Minhas mãos brincam com a renda sem perceberem o ato inconsciente. Meus olhos fitam sem ver um quadro de Monet, com flores lilases e muito verde. a parede é branca e tambem nela se nota um tom envelhecido na pintura já um pouco gasta.
Muitos anos passaram ali e a parede sentiu a força do tempo em cada canto. A sala mostra um ambiente parecido a casas de aluguel. Tudo é bonito porem tudo é alheio.
As duas taças continuam ao meio. Espero que ele volte. Saiu intempestivamente depois de uma briga de amor, quem sabe a dose de ciumes tenha sido um pouco forte ou quem sabe ele seja mesmo uma criança num corpo de homem...
Sei que voltará, porisso mesmo espero com as taças a meio copo, porque ele gosta de beber junto comigo.
A porta entreaberta chama por ele e sei que neste momento ele está parado na esquina sem saber se vai ou se volta. Analiza a questaão, fica com raiva de mim, mas sabe que meu amor é muito forte para ser trocado por meia dúzia de palavras ditas sem pensar.
Nao vale a pena por sentido numa conversa boba como aquela. Tudo ia muito bem até que lhe contei sobre uma possível relação mais séria e comprometida que me levaria a um caminho mais seguro e a um futuro melhor.
Com ele, foi muito amor e pouca segurança. Nossos encontros em lugares alugados por hora, deixava-nos muito a desejar.
Sempre compreendí sua posição relacionada a falta de opção para nosso amor. Talvez eu o ame tanto porque não me cobra quase nada e me dá aquilo que busco numa relação homem/mulher.
Mas agora diante da possibilidade de um relacionamento mais estável e sem problemas, ele está sofrendo.
O vinho tinge de vermelho meus pensamentos. Eu o quero mais que tudo e mesmo assim sinto necessidade de construir tambem um ninho que seja meu.
A cortina balança ao vento. Parece que o tempo vai mudar, um arrepio de frio corta minhas costas e tenho um quase medo. Do futuro? do aqui e agora? de mim mesma? Entrevejo lá fora sua sombra incerta. Caminha pela calçada e passa a mao na cabeça, como se quiser descobrir uma forma de consertar o que nao tem remédio.
Meu telefone chama várias vezes, porem nunca o atendo quando estou aqui.É como se eu nao quisesse que nada viesse quebrar o ar sagrado daquela sala que tantas vezes nos abrigou em nossos encontros de amor.
Meu batom sujou a taça de vinho e vejo que amorrotei demais a toalha de linho branca, estou nervosa.
Nestes momentos tenho saudades de quando fumava, um cigarro me faria bem agora.
Espero que ele volte.
Ainda falta muito que falar, que abraçar, que perdoar.
Mesmo que eu vá para outros caminhos, nunca vamos nos separar, porque seu sangue corre em minhas veias como o vermelho deste vinho corre em cada partícula que tinge a taça.
Compreendo que ele é imaturo e incapaz de lutar pelas coisas que deseja, mas tambem sei que sem ele minha vida não teria sido tudo de bom que foi.
Olho para a porta enteaberta e atravéz do vinho vejo seus olhos vermelhos de chorar. É como a criança que precisa de deitar no colo da mãe e contar a sua perda.
Minha fortaleza o deixa ainda mais inseguro. Sabe que sem mim não ha vida em suas entranhas e que sem aquelas duas taças de vinho tinto a vida fica sem cor.
Que não havera tardes encantadas e nem horas contadas para ir ao encontro de suas mais doces fantasias. Sem mim a vida correrá insípida e não terá força para continuar.
Olho profundamente nos seus olhos tristes e vejo um mar revolto e descontente, quase um pedido de socorro.
Roço meus dedos nas bordas frias da taça, lembro meus seios umidecidos pelo calor do meu corpo quando ele está me beijando. Tudo me faz lembrar o nosso amor, todo contato, toda lembrança, todo cheiro.Ele está presente em cada canto em cada tudo e em cada nada. Somos a mais perfeita combinação humana.
Olho para bem longe no futuro e o vejo ao meu lado. olho para mim mesma sentada nesta cadeira de modelo ingles, com espaldar baixo porem bem cômoda e bonita, de frente com a taça que balança o vinho tenho a certeza que o quero mais que nunca.
As possibilidades de um futuro seguro vao se desfazendo diante daquela taça e trago mais um gole doce, afrutado, leve com um sabor de tanino bem controlado. Degusto o sabor de mais um beijo, mais uma carícia e a lascívia corre pelos meus pelos e eu fico ali, sem eira e nem beira, como um passarinho sob a mirada magnetizante da serpente.
Um prazer doentio, uma dependência, um vício.
As duas taças continuam sobre a mesa.
O amor é mesmo a mais dura droga. Entorpece, traz dependência física e psiquica, cega e tira as forças e mesmo assim seguimos emprazerados.
Sábado, Agosto 19, 2006
Era Vânia.
Natércia Pontes
--Quando eu era pequena, bem pequenininha mesmo, minha mãe contou uma história de um homem que vendeu a alma para o Diabo em troca de riqueza e fama. Meus olhinhos brilharam e o coração escondido afligiu-se de medo. Embora a intenção de minha mãe fosse ensinar-me a integridade e a bondade de Deus e da religião cristã, lembro-me, perfeitamente, do que aquela história significou para mim, lembro do peso dela, tão grave, enigmático e tão presente por toda a minha vida: Eu já, desde então, tão pequena e tão menina, sentia-me docemente atraída pelas tentações do mal.
A sala de estar da Vânia é decorada por móveis baratos que fingem mogno e apresentam o estofamento revestido por tecidos encardidos variados pelas cores: creme e azul-marinho. O ar da sala de estar da Vânia pesa num escuro tom de azul . Os quadros tortos, feios e pobres de espírito denunciam desleixo, mau gosto e infelicidade. Vânia está só e o marido saiu. Vânia também está sentada em seu sofá azul-marinho. Jantou, escovou os dentes e agora passa o fio dental, desatenta, frente à tevê. O som da tevê está alto e Vânia nem percebe. O que ela vê na tevê é uma igreja repleta de gente torta, feia e agitada. Todos cantam e acodem para o céu, balançando as mãos como pássaros presos em correntes. No canto da tela, vê-se uma intérprete de surdos, as palmas mudas traduzindo a canção, a melodia pobre e repetitiva que dizia mais ou menos assim : ¿Entregue a sua vida, grite ao mundo inteiro, ele é a salvação, venha a Cristo sem demora, venha agora...¿. Vânia bocejou, desligou a tevê, o dedo gordo, a unha grossa e sem tinta, pressionando, decidida, a tecla de comando vermelha: POWER.
Vânia, ainda no sofá azul-marinho, fechou os olhos e viu alguém dentro das pálpebras. Ela me viu, eu sei. Eu sei de tudo porque estava lá, dentro da cabeça de Vânia. Eu sei de tudo também porque já morri. E faz tempo. O fato é que desde pequena sempre fomos muito próximas, estudamos juntas, pulamos amarelinha, os nossos corpinhos mirrados cresciam para cima e para os lados, o tempo passava, menstruamos quase à mesma data, uma loucura, o buço da Vânia insurgia espesso e grosso, e meus peitos, novos e bicudos, fulminavam, impiedosos, o vestido de musselina amarelinho-claro.
Os nossos gritinhos adolescentes e gasguitos se faziam subitamente abafados pelo grande estrondo ¿calem a boca vocês são moças de família¿ proferido por papai. Nós gritávamos de tesão reprimido, eu acho. Nossas calcinhas --não parávamos de crescer para os lados-- apertavam muito e quando não estávamos na escola, passávamos os dias trancafiadas no quarto, sem ter absolutamente nada para fazer da vida. Aquela velha história, moça de família não anda avulsa aí pela rua, moça de família se guarda, estuda e ora. Nós éramos sim, duas moças de família, respeitabilíssimas, amáveis e íntegras, mas não era nossa culpa, definitivamente, não era nossa culpa que nossas bocetas passassem os dias inteiros inchadas e melecadas de tesão.
O jeito foi um dia perguntar para a Vânia o que ela sentia, se ela sentia, se era aquilo mesmo, se ela sentia aquela explosão concentrada e quente, que tomava o corpo rendido, as caldeiras do inferno cozinhando nossas pernas, nosso ventre e nossos pés. Ela se fez de desentendida e pura, eu conhecia muito bem a Vânia, os olhinhos dela agradeciam a minha pergunta, o buço suado, a boca umedecida sorria nervoso e pedia, me explica direito, não entendi nadica de nada e se fazia interessada, como assim, Deus, como assim, meu Jesus? Eu disse que temia a Deus, mas que também temia ao fogo do Demo pelo o que sentia uma vez ou outra, como agora, eu sentia ali em baixo, sabe ali, Vaninha, dentro de mim? É como se meu corpo derretesse inteiro e a lava, o rio caudaloso e gosmento, emanasse, sem contenção, lá de baixo e eu tivesse que gritar para o mundo que doía, que era tão bom e que eu só queria aquilo nessa vida mais e mais, até o fim? Sabe Vaninha, diz que sente, diz que sabe do que eu digo, diz para mim, vai dizzzzz.
Vaninha não respondeu nada, correu e trancou-se no banheiro --só vejo através das paredes porque sei de tudo e como já o sabem, morri-- arriou as calcinhas apertadas, as coxas suadas, e por lá meteu os dedos. Esgarçou as carnes rosas e molhadas do sexo com tanta veemência que um fio de sangue quase laranja desceu por entre suas pernas tremidas, entregues e culpadas. Vânia gritou baixinho, chorosa, satisfeita e condenada, ai meu jesus cristinho do céuuuu...
A vida passou, trinta anos passaram, retornei ao Rio de Janeiro, em época de férias, para ver o mar. Sabia por alto que Vânia havia casado, sabia que morava por ali, o cartão impessoal dos correios, cara amiga, feliz natal, o número conferia e o andar também, o meu dedo gordo, a unha grossa e sem tinta, apertava o 306, alô Vaninha, sou eu, desculpa vir assim, sem avisar, eu estava passando e...que é isso menina, sobe aí, que surpresa boa, olha só, meu deus, e esse cabelo, agora você é loura, me conta, me conta, como você está?
Vaninha estava gorda e feia, o braço de morsa encalhada na beira do mar. Ficou, ao longo dos anos, morena encardida, os olhos fundos e rodeados por duas auréolas roxas que lhe conferiam um ar exausto e vencido. A bandeira branca, puída, estava fincada bem ali no meio da testa da minha antiga amiguinha, pobre Vaninha, pobre de ti. Sentada no sofá azul marinho olhava os quadros tortos, feios e pobres de espírito, as almofadas encardidas tingidas de creme, o rack da tv imitando mogno, o ar da sala de estar pesava num escuro tom de azul.
Ofereceu chá e tremia, porque enfim, porque eu estava bem e ela estava tão mal, tão gorda, tão encardida, tão infeliz, tão longe de si. O buço adolescente havia desaparecido dando lugar a uma mancha marrom, uma borra de café maculando para sempre seu rosto gordo, derrotado e aflito. Vânia explicando, desorientada, onde o marido estava ou o que ele fazia ou como o casamento ia, derrubou o bule e o chá por todo o vestido, queimando o corpo, os cacos da porcelana barata, pintada à mão, espalhados pelo piso, o gritinho adolescente, ai meu Jesus, ai meu Deusinho do céu, um grito involuntário e gasguito. Foi quando eu lembrei da Vânia sorrindo.
Vânia querida, senta aqui que eu limpo tudo, não precisa, não precisa, está certo, vou sentar, não estou me sentindo muito bem. Você quer água, um remédio, quer que eu abra a janela para a brisa entrar? Sim, beba a água, você está tão pálida, minha amiga, me conta, Vaninha, porque você está com esse rosto triste, Jesus, chore, chore à vontade, meu colo é antigo, você sabe, você sabe que comigo pode contar. Vânia deitou em meu colo, no sofá azul marinho, para chorar.
Seu corpo todo encolhia e enchia a cada soluço, uma tigela enorme de gelatina escura ameaçava explodir por todo o lugar, emitia gritinhos sofridos e eu só entedia alguns solfejinhos: por que meu jesuuuuus, por queeeê.... Era de dar dó. Apliquei-lhe um cafuné por detrás das orelhas, avançando minhas mãos com ritmo e dedicação, meus dedos invadiam delicadamente toda a cabeça. Minha amiga, por hora, mudou os tons dos soluços que agora se faziam mais lentos e demorados. Por um momento, me olhou com ternura profunda, seus olhos, cansados e miúdos, suplicavam o amor.
Pediu mais um copo d¿água, estou com a boca seca, faz favor. Levantei solícita, pronta para ajudá-la, pronta para fazê-la feliz naquela sala de estar em tom de escuro azul. Voltando da cozinha, o copo d¿água, eu vejo a minha amiga, a minha Vaninha, em pé, endurecida, o braço em riste segurando, com os dedos, um caco enorme de porcelana pintada à mão. Seus olhos alucinados, vermelhos, amarelos, transtornados, carregados de morte, suplicavam a dor. Uma estocada certeira no coração foi o suficiente para eu morrer. A asa do bule, no meu peito, ainda fremia, pausado e devagar.
Os evangélicos cantavam e oravam por Jesus no tubo negro da sala azul. Vânia bocejava, os dentes escovados, desligou a tevê, apertando a tecla de comando POWER, a unha grossa pintada sem tinta, vermelha, amarela, transtornada e decidida. Vânia abandonou meu corpo pela sala. Meu corpo sangrou lento até estancar. O marido da Vânia nunca percebeu nada porque o marido de Vânia, meu Jesus , meu Deus, o marido de Vânia, nem mesmo a Vânia, nunca, nunca, Cristinho amado, o marido da Vânia, nem mesmo a Vânia, nunca existiram, nem no meu quarto antigo, nem nessa sala escura em tom de azul, muito menos nessa vida pouca que tu me deste, meu Senhor, meu Redentor, meu Salvador do Reino dos Céus.